BRASLIA - "No preciso desta m....!" Com este grito de independncia e vrios outros palavres, o presidente da Comisso Especial da reforma da Previdncia, deputado Jair Soares (sem partido-RS), renunciou ontem ao cargo e impediu que o relatrio do deputado Euler Ribeiro (PMDB-AM) fosse votado. Jair deixou tambm o PFL - do qual era presidente regional - e, conseqentemente, a vice-liderana do partido na Cmara.

A atitude de Jair foi uma resposta s presses do lder do PFL, Inocncio Oliveira (PFL-PE), para que ele desrespeitasse o regimento interno da Cmara e abrisse o processo de votao de qualquer maneira. A ttica havia sido acertada na noite de anteontem, mas Jair denunciou o acordo e terminou o dia como um mrtir da oposio.

Minutos depois de saber que Jair iria acatar um requerimento do lder do PDT, Miro Teixeira (RJ) - pedindo tempo, pelo menos at tera-feira, para que o plenrio da comisso analisasse os pontos novos do relatrio -, Inocncio comeou a agredir verbalmente o colega. De onde se encontrava, ao lado do lder do governo, Luiz Carlos Santos (PMDB-SP), e do deputado Benito Gama (PFL-BA), empinou o dedo para Jair, que ainda presidia a sesso, e xingou: "Seu safado!"

Imediatamente, Jair suspendeu os trabalhos e saiu do plenrio, seguido pelo lder do governo e por Inocncio. "F. d. p. nenhum vai me obrigar a nada", reagiu irritado. Inocncio voltou  carga: "Voc vai votar, porque eu estou mandando, f. d. p.! Eu sou o lder do maior partido da Cmara e voc vai fazer!" Quando sentiram a presso sobre o presidente, os deputados da oposio saram em seu socorro. Comearam a gritar no plenrio, a ponto de constranger os outros lderes de partidos governistas, que bateram em retirada.

Estadista - Numa sala ao lado, Jair Soares fazia um discurso de estadista: "Tenho 62 anos de idade, 40 de vida pblica, e no me importo se ficar no ostracismo. No preciso de presidncia, de PFL, de m.... nenhuma! Morro pobre, com minha conscincia!" Enquanto isso, Inocncio bufava, cerrava os dentes e detonava: "Ele s foi presidente porque eu deixei! Eu poderia ter nomeado a mim mesmo para a presidncia da comisso!"

Quando conseguiu entrar na sala, onde Luiz Carlos tentava convencer Jair a retomar a sesso, Inocncio ofereceu mundos e fundos - conforme o prprio Jair relataria mais tarde - para salvar a votao. At viagem com o presidente Fernando Henrique entrou na negociao. "Me ofereceram coisas imaginveis e inimaginveis", contou.

Inocncio se ofereceu at para pedir desculpas pblicas por t-lo agredido. E ainda com esperanas de reverter a deciso de Jair, impedia o deputado de voltar  sala da comisso e renunciar oficialmente. "Voc diga o que quer, para no renunciar", implorava Inocncio. Mas foi em vo.

Pensando estar livre, Jair voltou  sala da comisso, onde foi apoiado por membros do PT, PDT, PC do B e PPS, que o receberam com aplausos. Sentou-se, mas, antes de renunciar, Inocncio o arrancou da cadeira, para outra conversa na sala da liderana. Novo fracasso. Na porta, parte do PT j cantava vitria e elogiava at a quarta gerao de Jair Soares. "Isso  que  atitude de estadista e gacho macho!", bradava Paulo Paim (PT-RS).

Protesto - A parte do PT favorvel ao acordo - ou seja, o deputado Jos Genono (SP) - entrou correndo no gabinete da liderana do governo, onde Inocncio tentava seduzir Jair Soares. O que o lder do PFL desconhecia  que a atitude de Jair era um protesto contra tudo - inclusive contra o presidente Fernando Henrique. "Se o governo quisesse fazer acordo, tinha que ter feito na comisso. Ou ento, o presidente deveria retirar a emenda e abrir o dilogo com as centrais", disse Jair.

O deputado precisou simular uma fuga, para se livrar de Inocncio. Disse que ia ao banheiro. Quando percebeu que havia perdido o relator de vista, Inocncio gritou: "Volta aqui, Jair! Eu confiei em voc, Jair!" Quando conseguiu voltar ao plenrio e, finalmente, renunciar, Jair foi novamente recebido com aplausos pela oposio. E quase saiu dali carregado como heri.

No final, j na sala da Comisso de Constituio e Justia (CCJ), o deputado se viu cercado por mais de 100 jornalistas e cinegrafistas, aos quais fez um relato de todo o processo de aprovao da reforma. Reafirmou sua postura contrria ao acordo - "O governo no podia diminuir a comisso com este acordo" -; fez crticas  emenda da Previdncia - "Quero a reforma verdadeira, no quero saber de falcia, engodo e meias-verdades" -; e atacou o ministro Reinhold Stephanes (PFL-PR) - "Ele no tinha clima na comisso. E no digo isso porque tenha desejado ser ministro... Se fiz campanha para o Esperidio Amin, vocs acham que eu teria a cara-de-pau de querer ministrio?"

Jair atacou a negociao - "Pau que nasce torto, torto permanece" - e denunciou as presses sobre o relator. Por fim, com ar de vitorioso, proclamou: "No Rio Grande, todo mundo sabe uma frase: se quiser montar em mim, monta pelo lado certo. Porque, se montar errado, saio corcoveando..."

